
A administração do governo Trump divulgou nesta quarta‑feira, 23, o America’s AI Action Plan, um documento de 25 páginas que reflete o objetivo dos Estados Unidos em conquistar uma “dominação incontestável” inteligência artificial no mundo. Mesmo fazendo isso depois da China, o texto atribuído a Trump diz: “É imperativo, para a segurança nacional, que os Estados Unidos alcancem e mantenham uma dominância tecnológica global incontestável (…) Devemos aproveitar todo o poder da inovação americana”.
O plano se apoia em três pilares: Inovação, Infraestrutura e Diplomacia & Segurança Internacional. Ele combina incentivos financeiros, cortes regulatórios e políticas industriais de grande escala. Para inovação, a Casa Branca quer remover a “red tape” que, segundo o documento, dificulta pesquisas e adoção de IA. Normas federais consideradas onerosas deverão passar por revisão e verbas federais poderão ser condicionadas a estados que mantenham ambientes de teste mais livres. O plano também afirma que sistemas contratados pelo governo sejam “objetivos e livres de viés ideológico” e estimula modelos open‑source / open‑weight, além de prever a criação de um AI Workforce Research Hub para qualificar trabalhadores ameaçados pela automação. Analistas veem com bons olhos a desregulamentação no Vale do Silício, mas alertam para o risco de enfraquecimento de mecanismos de proteção contra vieses e falhas de segurança.
Para o pilar de infraestrutura, documento traz o slogan “Build, Baby, Build!”, no qual o governo quer licenciamento expresso para data centers, fábricas de semicondutores e usinas de energia, criando novas exclusões categóricas na lei ambiental. O governo dos EUA também planeja reformar a rede elétrica para atender à explosão de demanda computacional, priorizando fontes despacháveis, de fissão nuclear a geoenergia, e repatriar a cadeia de chips por meio de um reforço ao programa CHIPS, livre de “agendas ideológicas”. Vale lembrar que, só em 2024, os data centers consumiram cerca de 4 % da eletricidade do país e que expandir a infraestrutura deve exigir investimentos bilionários, além acentuar disputas regulatórias entre estados.
O terceiro pilar, que se refere a diplomacia dos algoritmos, reconhece que liderança em IA depende de alianças. O plano propõe exportar “hardware, modelos, software e padrões” a países dispostos a integrar o bloco tecnológico liderado pelos EUA. Ao mesmo tempo, endurece controles de exportação para chips avançados, fecha brechas na cadeia de semicondutores e promete combater a influência chinesa em órgãos internacionais de governança de IA. Avaliações obrigatórias de modelos de ponta e normas de biossegurança passarão a integrar rotinas de segurança nacional. Essa pode ser uma forma geopolítica de “friend‑shoring” algorítmico, mas isso pode causar resistências de aliados que temem retaliações ou dependência excessiva de tecnologia americana.
A ofensiva de Washington reaquece a competição global. Ao mesmo tempo, a revogação de ordens anteriores, como a EO 14110 de Joe Biden, por exemplo, promete reacender o debate entre inovação veloz e precaução regulatória. Na América Latina, países que desejem atrair data centers ou adotar padrões estadunidenses podem se beneficiar de investimentos, mas arriscam sofrer restrições se optarem por fornecedores chineses.
Por ora, o AI Action Plan é apenas um roteiro e uma forma de mandar uma mensagem para o mundo que seu governo está agindo. Mas regulamentos formais, créditos fiscais e pacotes de financiamento ainda serão detalhados por Departamento de Comércio, Departamento de Energia e Pentágono nos próximos meses. O fato é que a disputa política e judicial sobre o equilíbrio entre segurança, privacidade e competitividade é uma realidade. Esse documento reforça a marca do trumpismo: menos regulação, industrial policy musculosa e uma visão de competição existencial com a China. Se o país conseguirá “vencer a corrida” ainda é incerto, mas o tiro de largada foi dado e o mundo.






