“Mundo está hiperconectado e nos colocou em uma guerra híbrida”, alerta idealizador do Cyber Security Summit Brasil

Rafael Narezzi – Foto: Divulgação

As discussões sobre soberania digital, autonomia dos países e segurança têm aumentado entre os especialistas em tecnologia. Rafael Narezzi, idealizador do Cyber Security Summit Brasil, a principal conferência focada em cibersegurança da América Latina, trouxe à tona o assunto durante uma entrevista exclusiva ao Newly, na ocasião da 9ª edição do evento, realizada no Hotel Grand Hyatt, em São Paulo, entre os dias 27 e 28 de outubro. Segundo o especialista, o mundo todo hoje já é hiperconectado e, atualmente, estamos vivendo uma guerra híbrida entre países.

“Vemos ativistas e sponsor actors, grandes grupos patrocinados por estados e nações, focados em causar o caos. E isso não necessariamente acontece para que haja retorno financeiro, mas somente para trazer um problema para uma soberania, para uma economia”, alerta. No conceito, o objetivo de uma guerra híbrida é desestabilizar uma sociedade sem que seja possível atribuir a responsabilidade pelo conflito a somente um fator. Ou seja, há sempre mais de um e, geralmente, eles envolvem ataques cibernéticos, disseminação de notícias falsas, pressões econômicas, influência política e outros fatores.

Para Narezzi, há questões específicas sobre o Brasil, a Europa e os Estados Unidos que precisam ser levadas em consideração. O especialista cita a medida anunciada pela União Europeia em julho deste ano de estocagem de alimentos, água, combustível e medicamentos em casos de crises, como pandemias, desastres naturais, ameaças nucleares ou químicas e conflitos em geral. Dentre outras justificativas, a estratégia levou em consideração ataques híbridos e cibernéticos patrocinados por governos estrangeiros e a possível ameaça de a Rússia estar preparada para atacar a UE dentro dos próximos cinco anos. Além disso, houve a recomendação de que os próprios cidadãos criassem seus próprios kits de sobrevivência de 3 dias.

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Uma análise recente realizada pela Microsoft mostrou ainda que, em um ano, houve um aumento de 25% nos ciberataques realizados pela Rússia contra os países da OTAN, sendo que os Estados Unidos foram os mais afetados, correspondendo a 20% do total.

“Já no Brasil, os ataques acontecem muito no financeiro: as pessoas roubam identidades para fazer transações com o Pix”, comenta Narezzi. Em agosto deste ano, a Sinqia, empresa que fornece tecnologias para o setor financeiro, conectando bancos ao sistema do Pix, sofreu um ataque que provocou o desvio de cerca de R$420 milhões por meio de transferências. Um dos bancos afetados foi o HSBC, mas foi possível realizar o bloqueio sem que o sistema central do Pix fosse afetado.

De acordo com Narezzi, a segurança precisa ser o pilar principal de qualquer empresa. “Não adianta criar uma inovação, uma baita empresa que faça algo revolucionário, mas não conseguir proteger os bens críticos dessa companhia. O que a gente tem visto é que a inovação está vindo antes da segurança, mas isso cria débito técnico e até produtos que podem morrer pela falta do que a gente chama de Seeking Within Design. Por que não fazer esse produto levando a segurança de berço, de forma nativa? Essa atitude ajuda a escalar a inovação ao invés de barrá-la”, finaliza o especialista.

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