A solidez financeira e o nível de alavancagem das empresas de moda no varejo são tradicionalmente avaliados pela relação Dívida Líquida/EBITDA. Este indicador é crucial, pois expressa, em número de anos, o tempo que uma companhia levará para quitar sua dívida líquida utilizando exclusivamente o EBITDA (Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) gerado em um período de 12 meses.
O cálculo é direto: a dívida líquida é obtida subtraindo-se as disponibilidades (caixa, equivalentes de caixa e aplicações financeiras de alta liquidez) do total de empréstimos e financiamentos. Esse resultado é, então, dividido pelo EBITDA ajustado dos últimos 12 meses. Uma regra de ouro do mercado dita que quanto menor este índice, mais robusta é a estrutura de capital da companhia, sinalizando maior capacidade de pagamento e menor dependência de capital de terceiros.
O primeiro trimestre de 2025 revelou um setor mais racional financeiramente, com alguns destaques notáveis em termos de endividamento:
Posição de caixa líquido ou baixa alavancagem (luz verde)
A Lojas Renner S.A. demonstrou uma posição financeira extremamente forte, fechando o trimestre com um caixa líquido de R$ 1,2 bilhão. Isso ocorreu mesmo após o uso de R$ 500 milhões para a recompra de ações, a distribuição de R$ 179,4 milhões em Juros sobre Capital Próprio (JCP) e a liquidação de R$ 532 milhões em debêntures. A TRACK&FIELD manteve uma posição de caixa líquido de R$ 50,4 milhões. Sua geração de caixa operacional alcançou R$ 59 milhões, um aumento de 27% em relação ao ano anterior, e a empresa segue sem dívidas, apesar dos investimentos em novas lojas e na TFSports. O GRUPO SBF promoveu uma redução significativa na sua dívida líquida em 44,9%, o que levou a alavancagem a cair de 0,91x para 0,44x. Este movimento foi impulsionado pela forte geração de caixa operacional e pela ausência de novas dívidas ou antecipações de recebíveis.
Alavancagem equilibrada (luz amarela)
A C&A Brasil encerrou o trimestre com uma alavancagem de 0,5x, reduzindo sua dívida líquida em 46% na comparação anual, enquanto a liquidez se manteve superior à dívida de curto prazo (1,2x). A Marisa S.A. fechou com dívida líquida de R$ 110 milhões e alavancagem de 0,5x. A companhia utilizou recursos próprios em um trimestre que é tradicionalmente fraco em geração de caixa, mantendo uma estrutura equilibrada. A Riachuelo registrou uma alavancagem de 0,6x, superior aos 0,3x observados no 4T24. Contudo, é importante notar que, desde julho de 2023, a empresa reduziu R$ 1,2 bilhão em debêntures. Apesar desta alta pontual, o caixa cobre 153% da dívida de curto prazo, o que reflete uma estratégia ativa de desalavancagem e gradual recomposição de caixa.
Crescimento com capital de terceiros (luz laranja)
A VESTE S/A opera com 0,8x de alavancagem, resultado de uma dívida líquida de R$ 124 milhões. Este nível está ancorado em um EBITDA LTM (últimos doze meses) de R$ 149 milhões. Por fim, a Azzas 2154 apresenta a maior alavancagem do setor, em 1,3x, com dívida líquida de R$ 2,07 bilhões. Este número é explicado pela captação de R$ 600 milhões em debêntures, uma manobra para alongar o perfil da dívida. A empresa demonstra liquidez robusta e forte carteira de recebíveis, mas tem o desafio de reduzir gradualmente esse índice.
Em resumo, o 1T25 sinaliza uma divisão clara: Track&Field e Renner operam com caixa líquido, e o Grupo SBF tem uma estrutura praticamente desalavancada. Marisa, C&A e Riachuelo mantêm uma alavancagem equilibrada. Já Veste e Azzas 2154 seguem em crescimento com a utilização de capital de terceiros. Com a taxa Selic em 15%, a capacidade de geração de caixa de cada empresa se consolida como o principal termômetro para a resiliência do setor.






