Por que a Reforma Tributária está longe de ser neutra, e o que isso significa para o Brasil corporativo

Por Roberto de Lázari – Diretor Comercial e de Parcerias Estratégicas da All Tax

Roberto de Lázari – Diretor Comercial e de Parcerias Estratégicas da All Tax

Enquanto o mundo se adapta a uma nova ordem econômica marcada por tensões geopolíticas, políticas protecionistas e uma crescente fragmentação regulatória, o Brasil inicia em 2025 uma das mais profundas transformações fiscais de sua história. A Reforma Tributária, apresentada sob o argumento da neutralidade e simplificação, tem impacto que vai muito além da esfera doméstica: ela redefine o posicionamento do país e das empresas brasileiras no tabuleiro global de competitividade.

Para CEOs, CFOs e líderes de planejamento estratégico, a reforma não deve ser tratada como mera mudança técnica. A inclusão do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), embora prometa racionalização, redistribui silenciosamente vantagens entre setores e modelos de negócio. Empresas com cadeias produtivas digitalizadas e curtas podem ganhar eficiência, enquanto indústrias complexas, com múltiplas etapas e elos informais, enfrentam riscos na recuperação de créditos e erosão de margens — efeitos semelhantes aos observados em mercados com tributação fragmentada. 

Uma análise recente publicada pela All Tax aprofunda esse diagnóstico, mostrando como a redistribuição de créditos e a complexidade do novo modelo podem impactar diferentes cadeias produtivas, especialmente em setores intensivos em capital e logística. O estudo destaca ainda que a neutralidade tributária prometida pela reforma tende a variar conforme a maturidade tecnológica e o grau de formalização das empresas.

A suposta neutralidade, portanto, é ilusória. Trata-se de um novo jogo de forças fiscais e competitivas que exige visão global e respostas rápidas. 

A análise setorial confirma o deslocamento desse eixo de poder econômico. A manufatura vê a verticalização perder atratividade fiscal, em meio a uma tendência mundial de regionalização de cadeias. No setor de energia, o impacto sobre o OPEX (despesas operacionais) pode comprometer a atratividade de projetos verdes, justamente quando o mundo direciona incentivos à transição energética. No varejo, a gestão de créditos tributários se torna tão estratégica quanto o desenho logístico. E no agronegócio, a informalidade fiscal, antes tratada como um desafio local, passa a limitar o acesso a mercados internacionais que exigem rastreabilidade e ESG.

O Brasil, em essência, caminha para um “IVA seletivo”, uma estrutura híbrida que, ao contrário do modelo europeu de devolução ágil de créditos, institucionaliza fricções. Essa complexidade, longe de ser uma anomalia, reflete uma tendência global: governos competem por bases tributárias, buscam financiar déficits e moldam políticas fiscais como instrumentos de poder. Nesse cenário, a inteligência fiscal se torna o novo diferencial competitivo. A capacidade de navegar por esse sistema híbrido e prever seus efeitos em escala global pode transformar o compliance em estratégia, e a burocracia em vantagem.

Líderes empresariais precisam, portanto, ir além do cumprimento de obrigações. A nova geopolítica fiscal exige reavaliar alocação de capital, revisar estratégias de M&A, repensar modelos de negócio e comunicar aos investidores como a empresa está se posicionando diante desse novo ambiente. A vantagem não está em reagir, mas em antecipar: compreender como a reforma dialoga com políticas como o Inflation Reduction Act nos EUA, o friendshoring europeu e o Pillar Two da OCDE é essencial para proteger margens, reputação e acesso a mercados.

A Reforma Tributária de 2025 é mais do que uma alteração nas regras do jogo, é uma mudança nas placas tectônicas da economia brasileira. E, como em toda reconfiguração global, haverá ganhadores e perdedores. O sucesso dependerá da capacidade de traduzir complexidade em clareza e dados em decisões. Nesse contexto, a All Tax atua na fronteira entre tecnologia, estratégia e inteligência fiscal, ajudando empresas a transformar a incerteza da nova era tributária em vantagem competitiva.

Porque, no novo Brasil reformado, e no mundo fiscalmente fragmentado, compreender a geopolítica dos impostos deixou de ser um diferencial. Tornou-se uma questão de sobrevivência corporativa.

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