Este ano estive em mais uma edição da Eletrolar Show. O evento reúne fabricantes de eletroeletrônicos que apresentam para os varejistas as principais novidades que estarão no mercado nos próximos meses. Eu já cobri algumas edições, mas nos últimos anos não tinha ido porque as grandes marcas brasileiras não expõem mais lá, e há uma invasão de produtos chineses de baixa qualidade focados num público muito específico.
Com isso, o setor de bens duráveis cresceu 11% em volume entre janeiro e maio de 2026, com linha branca subindo 16% e portáteis 15%. O canal online já responde por 53,1% do faturamento do setor, primeira vez que supera o físico.
Essa configuração tem relação direta com o momento econômico do país. O brasileiro compra eletrônico se houver parcelamento. Com boa parte da população endividada e juros altos encarecendo esse parcelamento, os produtos mais acessíveis ganham destaque natural. Mesmo assim, os números da feira me impressionaram: mais de 100 mil m², cerca de 5 mil marcas, mais de 17 mil produtos, bilhões em negócios movimentados.
Voltei porque queria ver de perto duas apostas específicas: os robôs humanoides e as motos elétricas.
Os robôs humanoides ainda não estão entre nós
Confesso que esperava ver mais robôs humanoides circulando pelos corredores. Não vi muitos. O que pude acompanhar foi uma partida de futebol de robôs na Arena Robot Park, com disputas diárias entre humanoides desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos e da Universidade Federal de Goiás.
É louvável ver pesquisadores brasileiros nesse tipo de iniciativa. Mas, falando especificamente da atuação deles em campo, o nível ainda é sofrível. Eles não sabem onde está a bola, batem entre si, esquecem a bola de lado. É processo de aprendizagem, já que há muitas variáveis randômicas numa partida desse tipo.
Quem me acompanha sabe que sou cético com as promessas em torno dos robôs humanoides. Você colocaria um desses para cuidar dos seus avós? Mas é fato que houve avanços reais, puxados por investimentos pesados de países como China e Estados Unidos.
No Brasil, o futebol de robôs funciona como triste metáfora desse tipo de investimento por aqui. Como tantas outras tecnologias no passado, depende de profissionais apaixonados e pesquisadores dedicados que fazem o melhor possível com recursos escassos. A promessa existe. A distância também.
As ruas brasileiras serão tomadas pelas motos elétricas?
Apesar de vários stands com motos elétricas, que considero a grande tendência do ano, é um setor que pede números olhados com cautela.
O mercado brasileiro de motocicletas vive o melhor ano em quase duas décadas. Entre janeiro e abril, foram licenciadas 782.364 motocicletas, crescimento de 19,1% sobre o mesmo período de 2025, o melhor primeiro quadrimestre da história do setor. Para o ano inteiro, a Abraciclo projeta produção de 2,07 milhões de unidades, alta de 4,5%, e licenciamentos de 2,3 milhões, avanço de 4,6%. Moto é o transporte que mais cresce no país, puxado por delivery, custo do carro e mobilidade urbana.
A parte elétrica, isolada, é onde o entusiasmo precisa de filtro. Hoje as motos elétricas respondem por apenas 0,4% do mercado nacional de motocicletas, enquanto os carros eletrificados já chegam a 10,7% das vendas. Base minúscula. Cinco marcas concentram cerca de 67% das vendas desse nicho: VMoto na liderança, seguida por Shineray (única fabricante tradicional de porte que entrou no segmento elétrico), Super Soco e GCX. O posicionamento revela a estratégia: essas elétricas se concentram na faixa de entrada, competindo direto com motocicletas tradicionais de 150 cc e 160 cc, exatamente o nicho do entregador.
Existe ainda uma zona cinzenta envolvendo motos com motor até 50 cc ou velocidade até 50 km/h que, em tese, dispensam CNH e emplacamento. Acredito que essa zona terá mudanças em breve, principalmente por conta da Resolução do Contran de 2023.
Em vigor desde julho de 2023, a resolução separa os veículos elétricos leves por critério técnico (potência do motor e velocidade máxima de fabricação), não pelo nome comercial. Patinete, skate, monociclo e bicicleta elétrica de pedal assistido sem acelerador, limitados a 32 km/h, seguem sem exigência de registro, placa ou habilitação. Já qualquer veículo acionado por acelerador, com motor elétrico de até 4 kW e velocidade de fabricação até 50 km/h, entra na categoria ciclomotor, que exige Renavam, emplacamento, capacete e habilitação categoria A ou ACC. Acima desses limites, é motocicleta e segue as regras plenas do Código de Trânsito.
Não é preciso ser especialista para entender que, se essas motinhas de baixa potência chegarem em volume às ruas, o poder público será provocado a regulamentar.
No evento, duas marcas chamaram minha atenção. A BENLG (Benling Electric Vehicle Technology), de Dongguan, é fabricante grande, não montadora de fundo de quintal: produção de até 600 mil a 1 milhão de scooters por ano, mais de 20 anos de operação, presença em 65 países. O design retrô que lembra a antiga Vespa é assinatura da marca, vendida lá fora como linha urbana.
A BOLIN Electric Motor já aparece no mercado brasileiro em sites de marketplace. Pelo tamanho dos stands, são marcas dispostas a brigar pelo mercado nacional.
Vale registrar também aquele pequeno carrinho elétrico, quase um tuc tuc, exposto por lá. Já tinha visto no TikTok brasileiros “importando” esse modelo do Paraguai por valores em torno de R$ 5.000,00.
O Brasil segue assim: entre a promessa distante dos robôs e a chegada concreta, ainda tímida, das motos elétricas nas ruas.








