
O mercado de cibersegurança vive um paradoxo real. Os investimentos nunca foram tão altos, mas as vulnerabilidades continuam aparecendo em uma escala que expõe empresas, governos e consumidores a riscos crescentes. Esse dilema esteve no centro do Mind The Sec 2025, maior conferência de cibersegurança da América Latina, que transformou São Paulo em um hub de debates entre os dias 16 e 18 de setembro. Foram mais de 16 mil participantes, 225 patrocinadores e 200 horas de conteúdo, em três dias que reuniram executivos de grandes companhias, especialistas internacionais e marcas globais.
Um retrato da maturidade
Os números impressionam e confirmam a relevância do evento, mas também deixam evidente a distância entre intenção e execução. Firewalls, cloud security, inteligência artificial e sistemas avançados de autenticação já fazem parte da pauta corporativa, mas não há ferramenta capaz de compensar dados frágeis, processos pouco consistentes ou ausência de cultura organizacional voltada para segurança. Essa percepção atravessou palestras e corredores: tecnologia, sozinha, não resolve.
Palestrantes e perspectivas brasileiras
A programação contou com executivos de peso. Daniel Moreira, CISO da Drogaria Araujo, trouxe a visão do varejo, em que a proteção do dado do cliente já se tornou questão de sobrevivência. Daiane Almeida, CISO da Europ Assistance Brasil, destacou o papel da regulação como divisor de águas para empresas que precisam proteger reputação e credibilidade. Tatiana Mota, gerente de cibersegurança da Bayer, lembrou que políticas globais exigem adaptação ao contexto local, sob pena de perder efetividade. Já Felipe Thomé, superintendente de riscos cibernéticos da Marsh, apontou o impacto financeiro de falhas que já influenciam contratos de seguro e cálculo
de risco corporativo.
Trilhas que revelam prioridades
Com mais de 200 horas de conteúdo, as trilhas confirmaram as áreas críticas do debate: identidade digital, privacidade, proteção de dados, inteligência artificial, cloud security, governança, risco e compliance. A diversidade mostrou que a segurança deixou de ser função isolada de TI para se tornar eixo principal dos negócios. E revelou também o consenso mais incômodo: o elo humano segue como ponto de maior vulnerabilidade. Educação digital, treinamento contínuo e engajamento da alta liderança foram apontados como diferenciais reais entre organizações resilientes e aquelas que apenas colecionam ferramentas.
A pauta que chegou ao conselho
Se antes o tema aparecia apenas nas áreas técnicas, o Mind The Sec 2025 confirmou que a cibersegurança já ocupa espaço nos conselhos de administração. Decisões de investimento, atração de capital, confiança de clientes e até a continuidade das operações passam, hoje, pelo nível de maturidade digital das empresas. Em setores como varejo, saúde e finanças, o impacto já é visível: a segurança virou competitividade.
O recado final
O saldo da 13ª edição é claro. O Brasil já tem um dos maiores encontros de cibersegurança do mundo, mas ainda enfrenta dilemas que vão além da compra de tecnologia. Sem governança robusta, dados confiáveis e cultura organizacional eficiente, os bilhões aplicados correm o risco de sustentar castelos de areia.






