Uso passivo de IA e redes sociais pode reduzir o esforço cognitivo do cérebro humano, alertam especialistas

Luana Aguilera, 32, é empresária e gerencia uma cafeteria na cidade de Santos (SP). Uma vez por semana, ela tem o costume de utilizar o ChatGPT, uma ferramenta de inteligência artificial conversacional capaz de responder perguntas, resumir conteúdos, escrever códigos e dar sugestões, para automatizar tarefas administrativas do café e otimizar a rotina. Miguel Caetano Vargem, 28, é Engenheiro Ambiental e também já utilizou esse tipo de chatbot para auxiliá-lo na elaboração de relatórios de resultados a partir de dados já tabulados por ele. De acordo com informações divulgadas pela OpenAI, o Brasil é o terceiro país que mais utiliza o ChatGPT, enviando cerca de 140 milhões de mensagens diárias à plataforma. 

Diante da popularidade da ferramenta, e de uma pesquisa realizada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que apontou que o uso do ChatGPT pode levar a um déficit cognitivo e provável diminuição na aprendizagem, o Newly conversou com diversos especialistas na tentativa de entender como e se a IA afeta o cérebro. Embora, entre os profissionais ouvidos, seja unanimidade que os resultados sobre o impacto na cognição cerebral são bastante preliminares, já é possível traçar uma rota sobre os efeitos da inteligência artificial na vida humana. 

“O consumo passivo de conteúdo por meio de IAs generativas pode levar à um enfraquecimento de conexões cerebrais, dependendo do uso. Porque o cérebro é moldado pelo hábito, então, quando deixamos de pensar, refletir ou elaborar ideias por conta própria, ativamos menos circuitos de atenção, memória e raciocínio. Com o tempo, essas conexões se tornam menos eficientes e, nestes casos, a falta de esforço cognitivo, a redução de pensamento crítico e profundo e o desuso de memória na terceirização para a máquina refletem isso. O risco está no uso automático e passivo, que reduz o engajamento mental e, com o tempo, pode comprometer o desempenho cognitivo. Desde que o uso da IA seja ativo, como ferramenta para explorar, criar, debater e aprender, e não apenas consumir, isso pode ser usado para o bem e revertido”, comenta Marina Marzotto Mezzetti, especialista em neurociência aplicada e fundadora da Neuro(efi)ciência. 

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O estudo do MIT foi realizado com 54 pessoas, divididas em grupos de 18 indivíduos, para cada um escrever um tipo de redação: usando o ChatGPT, da OpenAI; utilizando o mecanismo de busca do Google; e escrever sem o auxílio de nenhuma ferramenta. Cada participante escreveu 3 redações, ao longo de 4 meses, estando no mesmo grupo. Já na reta final do estudo, 18 participantes fizeram uma quarta redação e trocaram de grupo. A avaliação de desempenho de cada um foi feita por meio de encefalograma, um exame que mede a atividade elétrica do cérebro, e assim foi possível analisar o envolvimento e esforço mental para a realização da tarefa. 

Os resultados mostraram que 83% dos participantes que escreveram com ajuda da inteligência artificial não conseguiram recitar uma frase do próprio texto de cabeça; já no grupo que usou o Google, este número caiu para 11%. Além disso, ninguém que escreveu com a ajuda da IA conseguiu reproduzir corretamente os pontos principais que tratou na redação. No grupo que usou o Google, foram apenas 3 pessoas e, no grupo que escreveu sem auxílio, 2. Para Gabriela Morais, professora de inteligência artificial no Circuito IA na Prática e instrutora de IA na Força Aérea Brasileira (FAB), “embora o estudo tenha gerado ampla repercussão sobre o risco de depender da IA para atividades intelectualmente densas, os próprios autores e críticos destacam que ele é preliminar, com amostra limitada, e não se estende automaticamente a todos os tipos de uso de IA”. 

Segundo ela, a iniciativa é um marco inicial que “não prova definitivamente que o uso de IA danifica o cérebro, mas sugere que há trade‑offs cognitivos reais que merecem cautela”. Desse modo, de acordo com a especialista, o estudo se coloca como importante para a criação de diretrizes sobre o uso de IA e para motivar a criação de novas pesquisas. Para ela, o uso ideal da ferramenta seria tê-la como uma assistente, não substituta. 

A neurocientista Marina explica o que pode acontecer com o cérebro caso haja perda de conexões a longo prazo. “Significa a reconfiguração do cérebro, porque ele reforça o que usamos e enfraquece o que não usamos. E a plasticidade também é poda. Um exemplo é um estudo da PNAS sobre a navegação espacial: taxistas londrinos, que treinam intensamente rotas urbanas, apresentam alterações estruturais no hipocampo, área ligada à memória espacial. Já quem depende cronicamente de GPS tende a usar menos estratégias internas e tem pior desempenho sem o aparelho. Outro exemplo vem do uso excessivo de telas e conteúdos superficiais. Estudos já começam a mostrar que isso pode reduzir o volume de massa cinzenta em áreas ligadas à atenção, memória e tomada de decisão. O fenômeno foi apelidado de brain rot, uma deterioração cognitiva associada à dependência digital.”

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O Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós-PhD em Neurociências, também reforça a deterioração de mapas cognitivos do hipocampo a partir da dependência de GPS. Ele comenta que o uso de autocomplete, por exemplo, reduz o planejamento de escrita, assim como o consumo contínuo de vídeos curtos (das redes sociais, por exemplo), fragmenta o foco. “Automatização externa crônica reduz esforço cognitivo e tolerância à frustração. Observa-se menor capacidade de atenção sustentada, menor memória de trabalho operacional, aumento da impulsividade por reforço dopaminérgico rápido e menor autonomia metacognitiva”, comenta.

Segundo ele, outras consequências possíveis caso aconteça uso excessivo de inteligência artificial generativa podem ser o “aumento da ansiedade por dependência de resposta imediata, redução de tolerância a incerteza, procrastinação por overload de opções, empobrecimento do estilo autoral, distorção de auto eficácia cognitiva e maior sedentarismo. Em pessoas vulneráveis, a piora do sono por uso noturno e luz azul, piora de humor por comparação social indireta do desempenho.”

Como o uso da IA afeta os estudantes?

De acordo com a pesquisa Inteligência Artificial na Educação Superior, realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) em parceria com a Educa Insights, 80% dos estudantes conhecem ferramentas de inteligência artificial como ChatGPT e Gemini, e 71% as utilizam regularmente. Embora esse seja um estudo que fale sobre a educação superior, é interessante observar como o uso da IA pode afetar adolescentes e pessoas mais jovens. De acordo com Marina, a janela entre a infância e adolescência é sensível, pois o cérebro ainda está em formação, especialmente o córtex pré-frontal, que é responsável pela atenção, controle inibitório e planejamento. A especialista explica que ele amadurece quando atinge-se por volta de 21 ou 25 anos. 

“Quando o professor da faculdade pede para que a pessoa faça um ensaio sobre matemática, não é para ela gerar meramente um texto, é para passar por esse passo a passo e aprender com aquilo e, quem sabe, usar aquele conhecimento em situações novas. [Com a IA] o aprendizado fica muito superficial, cria uma ilusão. O ideal é não entregar para a IA toda a atividade, até porque ela pode alucinar e gerar informações falsas, muito genéricas. Então, uma ideia criativa seria pensar em possíveis soluções para um problema, fazer um brainstorming com a IA; debater certos conceitos em que há dificuldade em aprender. Usar a IA como aliada, como aprendizado aumentado”, sugere o psiquiatra Thiago Henrique Roza. 

Já para Fabiano de Abreu, saudável seria “o uso com objetivo explícito, tempo delimitado e esforço cognitivo mensurável. Exemplos práticos podem ser usar a IA para esboço e depois reescrever sem IA; pedir perguntas avaliativas em vez de respostas; praticar recall ativo sem consulta e só depois checar; alternar 50 minutos de trabalho profundo off-screen com 10 minutos de apoio da IA; registrar raciocínios num diário; desativar notificações. Alguns limites saudáveis são evitar sessões passivas superiores a 60 e 90 minutos por dia; reservar blocos diários sem IA para leitura longa, escrita própria e resolução de problemas”.

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