
Big techs são as grandes empresas de tecnologia do mundo, aquelas que atuam oferecendo serviços e soluções em escala global e, por isso, detém grande valor de mercado, poder inovativo e influência econômica e social. Uma das características dessas organizações é ter a capacidade de transformar e moldar a forma como as pessoas se comunicam, trabalham, consomem, aprendem e se relacionam. Hoje, entre as mais valiosas, no topo está a NVIDIA (US$4,4 trilhões), seguida da Apple (US$3,89 trilhões); da Microsoft (US$3,88 trilhões); da Amazon (US$2,39 trilhões); e da Alphabet (Google), com US$2,2 trilhões. O debate sobre elas está em ascensão, à medida que a discussão em torno da soberania digital também cresce, já que essas empresas têm capacidade para dominar o mercado.
“As big techs se tornaram infraestrutura. Elas controlam nuvens globais, cadeias de chips, modelos de IA e marketplaces onde os negócios acontecem. No tabuleiro atual, essas empresas jogam para aproximar infraestrutura crítica de demanda e para reduzir riscos regulatórios. Elas diversificam cadeias de semicondutores, firmam contratos de energia de longo prazo, expandem datacenters focados em IA Generativa e aproximam Pesquisa e Desenvolvimento de mercados-chave. Em paralelo, negociam interoperabilidade, residência de dados e conformidade com governos, porque sem licença social e previsibilidade jurídica não há escala sustentável”, explica Felipe Testolini, vice-presidente do Grupo Ivy, uma holding nacional com foco em soluções tecnológicas.
Leia também: Enquanto EUA considera a inteligência artificial um artigo geopolítico, Brasil ainda trata como automação e chatbot
Segundo ele, Estados Unidos e China têm dominado esse mercado por realizarem investimentos maciços em inteligência artificial, dados, datacenters e chips. “O objetivo é garantir compute abundante e barato, domínio sobre pilhas tecnológicas, do hardware ao modelo, e capacidade de ditar padrões, porque isso cria efeitos de rede: mais infraestrutura atrai mais aplicações, talentos e capital, e assim o ciclo se retroalimenta. Já países como Brasil e Argentina buscam entrar e permanecer no jogo usando vantagens estratégicas específicas, como de energia, território, conectividade, mercado, dados e incentivo à formação de talentos”, explica.
Recentemente, as tensões entre big techs e os países do globo se intensificaram por conta de algumas movimentações econômicas e de infraestrutura. A OpenAI irá construir um mega data center com capacidade de até 500 MV na região da Patagônia, na Argentina, sendo esse o primeiro data center da América Latina. Nessa corrida, o Brasil ficou de fora. Já a Apple anunciou que irá aumentar seus investimentos na China e será mais cooperativa com o país, tendo em vista os efeitos das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos no governo de Donald Trump. Ao mesmo tempo, a gigante da maçã vive o dilema de observar a China se desenvolver tecnologicamente, uma vez que, ao depender da mão de obra barata disponibilizada pelo país, também acaba aumentando e acirrando a própria concorrência, já que a China hoje desenvolve os próprios celulares, carros elétricos e modelos de IA.
Para o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja, o que está por trás dessas movimentações são questões políticas, ideológicas, tarifárias e de energia. “Visivelmente existe um alinhamento entre o governo argentino e americano que não se vê com o governo brasileiro e, além disso, o Brasil tem tido protagonismo no debate de regulamentação das big techs. As empresas reagem a isso, porque elas analisam com muito cuidado o ambiente de negócio. Em última instância, essas empresas estão defendendo os próprios interesses. Elas definem a regra do jogo e os drivers de decisão são obtenção de energia, proteção às leis antitrust, monopólio e a necessidade de barrar regulamentações e fazer lobby por questões tributárias e trabalhistas. Quando se fala de data centers, o Brasil é listado como um lugar que poderia ter uma série de vantagens competitivas em relação à matriz energética e demanda de protagonismo regional, então chama atenção que não tenha sido [o país escolhido], mas só podemos especular”, comenta.
A relação entre China e Estados Unidos (e como se posicionam os países do globo)

Júlia Tibiriçá Diegues Gomes é professora do curso de Relações Internacionais da FMU e avalia a relação entre Brasil e Argentina como amistosa, por compartilharem o histórico de integração via Mercosul e cooperarem em busca do reconhecimento de suas vulnerabilidades individuais, assim como pela projeção de poder de forma coletiva no Cone Sul, com correntes de comércio intensas. Já a relação entre Estados Unidos e China é classificada como instável, variando entre cooperação e competição. “Existe uma interdependência comercial e financeira profunda e uma rivalidade geopolítica de longo prazo. Desde a década de 1990, a China tornou-se peça central das cadeias produtivas globais, exportando manufaturas e, cada vez mais, produtos de alto valor tecnológico, enquanto os EUA mantêm hegemonia financeira e institucional.”
“Do ponto de vista geopolítico, há uma disputa por influência, em que os Estados Unidos procuram manter a centralidade da ordem e a China busca afirmar um modelo alternativo. A tecnologia, nesse contexto, tornou-se um campo de disputa fundamental. A soberania digital, conceito que designa o controle sobre dados, infraestrutura e padrões tecnológicos, está no centro das estratégias de ambos os países. Desde 2018, os Estados Unidos impuseram sucessivas rodadas de sanções e restrições à exportação de semicondutores e equipamentos de litografia para a China, alegando riscos à segurança nacional e ao uso militar de tecnologias civis. A China, por sua vez, respondeu com planos de substituição tecnológica, como o “Made in China 2025” e o fortalecimento de suas empresas de chips e de inteligência artificial. Estamos falando de quem definirá as normas e padrões de funcionamento da infraestrutura digital global, como redes 5G, cabos submarinos, plataformas de nuvem e centros de dados”, explica a especialista.
Segundo Júlia, as tensões vão além do ponto de vista econômico, mas ocorrem por fatores diversos. “Os Estados Unidos defendem um modelo de governança digital mais aberto e baseado no mercado, enquanto a China propõe um modelo mais centralizado, em que o Estado exerce controle direto sobre as plataformas e os fluxos de informação. Além disso, fatores ambientais e energéticos vêm ganhando importância na medida em que a operação de grandes data centers consome quantidades massivas de energia e água, o que torna países com matriz energética limpa e barata, como o Brasil, atraentes para investimentos estrangeiros. É nesse contexto que se explicam movimentos corporativos recentes, como a Apple diversificando sua produção para a Índia e o Vietnã para reduzir a dependência da China; e a Microsoft investindo fortemente em nuvem e IA no Brasil, mas recalibrando planos em outras regiões por questões de energia e demanda. Esses exemplos ilustram como a geopolítica da tecnologia é também uma geopolítica de recursos”. No segundo semestre de 2024, a Microsoft anunciou um investimento de R$14,7 bilhões em três anos para infraestrutura de nuvem, inteligência artificial e treinamento em escala com o objetivo de qualificar 5 milhões de pessoas no Brasil.
Contudo, a especialista chama a atenção sobre o modo como a expansão das infraestruturas digitais reproduz formas de colonialismo contemporâneo, o colonialismo digital. “Esse é um aspecto crítico frequentemente negligenciado. Hoje, discute-se muito a forma pela qual, assim como os impérios coloniais extraíam recursos naturais e força de trabalho, as potências digitais extraem dados, atenção e trabalho cognitivo de populações periféricas, transformando-as em matéria-prima para algoritmos e modelos de inteligência artificial. O controle das plataformas, dos cabos de fibra óptica e das infraestruturas de nuvem permite que grandes corporações, quase todas sediadas nos EUA ou na China, determinem as regras do jogo informacional global. Assim, a disputa por soberania tecnológica entre potências centrais não elimina, mas frequentemente reforça a dependência dos países do Sul Global, que continuam sendo provedores de dados e consumidores de tecnologia, em vez de produtores autônomos de inovação”, alerta.
Qual a posição do Brasil em tecnologia hoje?

Para Fabio Correa Xavier, CIO do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e Coordenador de TI da Escola Técnica Fundação de Apoio à Tecnologia, o Brasil tem avançado em governança jurídica, principalmente a partir da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e casos de sucesso de inovação pública, como o Pix. “Isso mostra que o país é capaz de construir soluções tecnológicas de escala global, mas ainda há desafios profundos. O principal é a dependência estrutural de infraestrutura estrangeira, tanto de nuvem quanto de modelos fundacionais de inteligência artificial, as LLMs. Hoje, a maior parte do processamento e armazenamento de dados brasileiros ocorre em datacenters fora do território nacional. Isso cria uma vulnerabilidade estratégica. Também precisamos avançar na maturidade federativa, porque a soberania não pode ser apenas federal: ela precisa estar presente em estados e municípios. Acredito que falta um padrão nacional de governança tecnológica e de proteção de dados que garanta uniformidade e segurança”.
Segundo ele, a fragmentação institucional é um fator que pesa contra o país. “Temos boas intenções em diversos ministérios, autarquias e órgãos de controle, mas falta uma coordenação transversal que alinhe incentivos, licenciamento e regulação. Esse emaranhado aumenta o chamado Custo Brasil, [um conjunto de fatores que tornam a produção e os negócios no país mais caros e complexos], tornando grandes projetos mais lentos e menos previsíveis. E há o custo energético: embora nossa matriz seja uma das mais limpas do mundo, a tarifa industrial e a burocracia para contratos de energia de longo prazo ainda desestimulam investimentos em infraestrutura intensiva em energia, como data centers”.
O Brasil lançou recentemente o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, que prevê o investimento de R$23 bilhões em quatro anos para desenvolver soluções em IA e transformar o país em referência mundial em inovação e eficiência no uso dessa tecnologia. Para Fabio, o plano é bem sucedido ao articular cinco eixos: infraestrutura, capacitação, setor público, inovação empresarial e regulação. “Ele acerta em reconhecer a IA como vetor de transformação econômica e administrativa, mas há duas dimensões que precisam avançar para que o plano se torne efetivo: governança e soberania. O investimento previsto exige uma matriz de responsabilidade e transparência rigorosas, com métricas que liguem o gasto público ao valor entregue à sociedade. Sem gestão de resultados, há risco de dispersão de recursos, algo recorrente em políticas tecnológicas no país”.
Já Arthur Igreja considera a aposta tímida. “O caso é interessante, porque o Brasil é um dos países que mais aborda a soberania digital. Talvez seja onde esse debate é mais presente. Não temos protagonismo tecnológico, mas sim um importante mercado consumidor. Sendo bem pragmático, [com o PBIA] mostra-se uma certa boa vontade em tratar o tema, em anunciar um plano, mas quando se olha os montantes o apetite é muito aquém do que está acontecendo no mundo afora. Além disso, o Brasil está com uma super dificuldade de investimento, tem a questão orçamentária e o equilíbrio fiscal está super apertado”, finaliza.
Leia também: IA como política de Estado






