Você já abriu uma embalagem de um produto que sempre comprou e pensou: “Uai, está menor?” Pois é, não é impressão sua é estratégia. Ou, melhor dizendo, é reduflação.
A prática de reduzir o peso, tamanho, qualidade ou quantidade dos produtos, mantendo ou até aumentando o preço, virou rotina no varejo global. E não é de hoje. Acontece sempre que os custos disparam, a inflação aperta e o consumidor começa a olhar mais atentamente para o valor da compra.
Ontem, ao fazer compras no Grupo Carrefour Brasil, deparei-me com uma imagem que me pegou de surpresa: a embalagem de pão de queijo da Forno de Minas, marca que sempre esteve na minha mesa, especialmente por ser mineiro. A tradicional embalagem de 1kg passou para 820g, e a de 500g para 400g.
Confesso que, como consumidor fiel e emocionalmente conectado com o sabor que mais se aproxima do pão de queijo da minha avó e da minha tia, levei um susto. Porque não é só um produto. É memória. É afeto. É o café da manhã, da tarde e até, às vezes, a janta com cheiro de abraço e gosto de história.
Espero, de verdade, que não assistamos ao mesmo movimento silencioso que já vimos em outros setores, como o dos chocolates no Brasil, onde o sabor cedeu espaço à escala, e o carinho foi substituído por sabor chocolate, açúcar ou custo-benefício.
Que o pão de queijo continue sendo o que sempre foi para a gente: muito mais do que um salgado. Um pedaço de casa.
Não se trata aqui de acusação, mas de observação. De quem valoriza o produto e quer que a relação de confiança com o consumidor siga do mesmo tamanho ou até maior.
A verdade é que muitos consumidores reparam mais no preço do que na quantidade. E é justamente aí que mora o risco para as marcas, especialmente as que construíram sua história com base em qualidade, afeto e valor percebido.
Em um mercado cada vez mais transparente, digital e conversado, mudanças no produto sem narrativa clara podem gerar ruídos desnecessários. A embalagem pode até encolher, mas o diálogo com o consumidor não pode.
Marcas que desejam manter relevância em tempos de inflação e consumo seletivo precisam mais do que estratégias defensivas. Precisam construir confiança ativa. Isso significa ajustar o portfólio com inteligência, ouvir o consumidor, comunicar com clareza e, acima de tudo, respeitar quem está do outro lado da gôndola.
Porque em tempos de reduflação, o que realmente não pode encolher é a relação com o cliente.






