Ataques a sistemas hídricos nos EUA acendem alerta de cibersegurança para o setor de saneamento no Brasil

Ataques a sistemas hídricos nos EUA expõem uma falha de proteção que também ameaça o saneamento brasileiro, alerta especialista da TI Safe.

Segundo Leonardo Cardoso, Diretor Institucional da TI Safe, o setor de águas historicamente recebe menos investimentos em segurança cibernética do que o setor de energia, mesmo com o avanço da digitalização e o aumento das ameaças contra infraestruturas críticas.

O aumento recente de ataques cibernéticos contra sistemas de abastecimento de água nos Estados Unidos reacende um alerta que especialistas em segurança digital fazem há anos: o setor de saneamento ainda está atrás do setor elétrico em nível de atenção, investimento e estrutura de proteção cibernética. O episódio expõe uma vulnerabilidade que não é exclusiva dos Estados Unidos, mas reflete um desafio global de um setor essencial que se tornou cada vez mais dependente de sistemas digitais para operar.

Segundo Leonardo Cardoso, Diretor de Relações Institucionais da TI Safe, empresa especializada em cibersegurança de infraestruturas críticas, essa diferença tem raízes estruturais, não apenas técnicas.

Governança fragmentada dificulta a padronização da segurança

Para Cardoso, parte da explicação está na forma como cada setor é organizado no Brasil. O segmento elétrico conta com grandes empresas integradas, redes nacionais interligadas e regulação centralizada, o que favoreceu a criação de padrões de segurança mais rígidos ao longo do tempo. Já o saneamento tem uma estrutura mais pulverizada. “No Brasil, o segmento elétrico segue diretrizes nacionais e fiscalização estruturada, enquanto o saneamento possui uma governança mais pulverizada, com diferentes modelos de regulação entre estados, municípios e regiões, dificultando uma padronização ampla das práticas de segurança digital”, explica o executivo.

Essa fragmentação também aparece no perfil dos operadores. Enquanto o setor elétrico é dominado por grandes companhias com equipes dedicadas à cibersegurança, o saneamento é formado por milhares de operadores locais e estruturas municipais, muitas vezes com orçamento limitado e pouca gente especializada em proteger ambientes de Tecnologia Operacional.

Água como ativo estratégico, não só como recurso natural

Cardoso lembra que o Brasil concentra cerca de 12% da água doce superficial disponível no mundo e abriga reservas subterrâneas relevantes, como o Aquífero Guarani, um dos maiores sistemas aquíferos transfronteiriços do planeta. Para ele, esse volume de recursos hídricos coloca o país em posição estratégica, inclusive no cenário geopolítico, mas exige também investimento em proteção. “Essa abundância coloca o Brasil em uma posição privilegiada, mas também exige investimentos em preservação, gestão eficiente e proteção de suas infraestruturas hídricas”, afirma.

Na visão do especialista, a água deixou de ser apenas um recurso natural e passou a ser também um ativo tecnológico. “A água, além de um recurso essencial, tornou-se também um ativo tecnológico, e sua segurança dependerá da capacidade das organizações de proteger tanto suas estruturas físicas quanto os sistemas digitais que controlam seu funcionamento”, pondera.

Digitalização avançou mais rápido que a proteção cibernética

O caso dos ataques nos Estados Unidos, segundo Cardoso, ilustra um problema estrutural: a modernização dos sistemas de água aconteceu num ritmo mais acelerado do que o amadurecimento da proteção digital. Muitas instalações ainda usam equipamentos industriais e sistemas de automação projetados originalmente para operar isolados de redes externas. Com a chegada da integração corporativa e do acesso remoto, essas estruturas passaram a ficar mais expostas. “Com a necessidade de integração com redes corporativas e acesso remoto, essas estruturas passaram a ampliar a superfície de ataque”, afirma.

O executivo também chama atenção para uma diferença de percepção entre os dois setores. Um ataque à rede elétrica costuma ter efeito imediato e visível, afetando hospitais, indústrias, transporte e cidades inteiras de uma vez. Já no saneamento, os impactos tendem a ser mais localizados ou graduais, o que pode dar a falsa impressão de que o risco é menor. Para Cardoso, essa leitura é enganosa: “sistemas de água comprometidos podem representar impactos relevantes para a saúde pública e para a continuidade de serviços essenciais”, alerta.

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