Ferramenta de IA antecipa em até 3 anos a detecção do câncer de pâncreas

Pesquisadores da Mayo Clinic criaram uma IA capaz de detectar câncer de pâncreas em tomografias comuns antes de qualquer sintoma aparecer — com taxa de acerto de 73%. A tecnologia pode dobrar a chance de cura de um dos cânceres mais letais do mundo.

A inteligência artificial para detecção de câncer deu um salto histórico: pesquisadores da Mayo Clinic desenvolveram um sistema capaz de identificar sinais do câncer de pâncreas em tomografias de rotina até três anos antes do diagnóstico convencional, segundo estudo publicado na revista médica Gut.

Um modelo de inteligência artificial (IA) desenvolvido pela Mayo Clinic pode ajudar especialistas a detectar câncer no pâncreas em tomografias computadorizadas do abdômen de rotina até três anos antes do diagnóstico. Ele identifica sinais sutis da doença antes que tumores possam ser vistos, quando o tratamento de cura ainda pode ser possível. As descobertas, publicadas na revista médica Gut, representam um marco dos esforços de pesquisa de muitos anos da Mayo Clinic que permitem a detecção mais precoce de um dos tipos mais letais de câncer. 

O estudo valida esse modelo de IA de próxima geração usando dados e fluxos de trabalho que refletem a prática clínica, incluindo tomografias computadorizadas de várias instituições, sistemas de aquisição de imagem e protocolos.

Os pesquisadores usaram o modelo de IA para analisar quase 2 mil tomografias computadorizadas, inclusive de pacientes diagnosticados posteriormente com câncer no pâncreas, todos interpretados originalmente como sendo normais. O sistema, chamado de Radiomics-based Early Detection Model (REDMOD), identificou 73% desses cânceres em fase pré-diagnóstica com tempo mediano de cerca de 16 meses antes do diagnóstico, quase o dobro da taxa de detecção de especialistas que analisam os mesmos exames sem a ajuda de IA.

A vantagem foi ainda maior em estágios iniciais da doença. Em exames feitos mais de dois anos antes do diagnóstico, a IA identificou quase três vezes mais casos precoces de câncer que não seriam detectados de outra forma.

Por que o câncer de pâncreas é tão difícil de detectar?

O câncer no pâncreas continua sendo um dos cânceres que mais matam por raramente apresentar sinais detectáveis nos estágios iniciais. Mais de 85% dos pacientes são diagnosticados após a doença ter se espalhado e as taxas de sobrevida de cinco anos continuam abaixo dos 15%, de acordo com o National Cancer Institute (Instituto Nacional do Câncer). A previsão é que, até 2030, ele será a segunda principal causa de morte relacionada ao câncer nos EUA. 

“O maior obstáculo para salvar vidas que perdemos para o câncer no pâncreas é a incapacidade de identificar a doença quando ainda pode ser curada”, declara o autor sênior Dr. Ajit Goenka, radiologista e especialista em medicina nuclear da Mayo Clinic. “Esta IA agora consegue identificar a característica do câncer em um pâncreas aparentemente normal e pode fazer isso de modo confiável ao longo do tempo e em diferentes contextos clínicos.”

Como o sistema REDMOD funciona na prática

O REDMOD mede centenas de características de imagem quantitativas que descrevem textura e estrutura tecidual, identificando alterações biológicas conforme o câncer começa a se desenvolver. O modelo foi projetado para analisar tomografias computadorizadas realizadas por outros motivos, principalmente em pacientes de alto risco, como aqueles com diabetes de início recente, e identificar um risco elevado antes do aparecimento de qualquer massa visível.

A operação do modelo é automática, sem necessidade de preparação manual demorada. A equipe validou o modelo em tomografias computadorizadas realizadas em várias instituições, sistemas de imagem e protocolos, demonstrando um desempenho consistente além de um único conjunto de dados.

As previsões do modelo também permaneceram estáveis ao longo do tempo. Em pacientes com vários exames, a IA produziu resultados consistentes com meses de intervalo, apoiando sua utilização para o monitoramento longitudinal e detecção precoce.

Próximos passos: testes clínicos e a iniciativa Precure

Os pesquisadores estão avançando seu trabalho em testes clínicos por meio da inteligência artificial para a detecção precoce do câncer no pâncreas (AI-PACED). Este estudo prospectivo avalia como os médicos podem integrar a detecção orientada por IA no atendimento de pacientes com risco elevado. O estudo combina análise de IA de exames de imagem de rotina com acompanhamento longitudinal para avaliar o desempenho, incluindo detecção precoce, falsos-positivos e desfechos clínicos.

Esta pesquisa faz parte da iniciativa Precure da Mayo Clinic, cujo objetivo é prever e prevenir a doença identificando as primeiras alterações biológicas no corpo antes do aparecimento dos sintomas. Ela também reflete a estratégia Clinical Impact da Mayo Clinic, que acelera a transformação da descoberta em atendimento aos pacientes.

O estudo foi apoiado pelo National Institutes of Health, pela Hoveida Family Foundation, pelo Mayo Clinic Comprehensive Cancer Center e pelo Champions for Hope Pancreas Cancer Research Program da Funk-Zitiello Foundation.

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